Sexta, 16 de Outubro de 2026 09:02
62981481941
Comportamento Saude

Mães neurodivergentes: os desafios invisíveis de mulheres com TDAH e autismo

Pediatra Marli Rio explica como características do autismo e do TDAH podem impactar a experiência da maternidade e reforça que dificuldades específicas não significam falta de amor ou cuidado

23/09/2026 17h05
Por: Carol Pedrosa Fonte: Flora
foto:divulgacao
foto:divulgacao

 

Quando se fala em neurodivergência e maternidade, a atenção costuma estar voltada para as crianças. Menos discutida, porém, é a realidade de mulheres que são mães e também vivem com condições como TDAH ou autismo. Para a pediatra Marli Rio, que atua há mais de 30 anos, ampliar esse olhar é importante para compreender desafios que podem permanecer invisíveis durante a rotina materna.

“Hoje se fala bastante sobre mães de crianças neurodivergentes, mas quase ninguém fala sobre a mulher que é mãe e também é neurodivergente”, observa a médica.

Quando os estímulos se tornam sobrecarga

Entre mulheres autistas, características como a hipersensibilidade sensorial podem interferir em algumas experiências da maternidade. Segundo Marli, a sensibilidade ao toque pode tornar a amamentação ou a necessidade de contato físico constante do bebê uma experiência difícil para algumas mães. A sensibilidade auditiva também pode contribuir para momentos de sobrecarga diante do choro frequente da criança.

“Isso não significa rejeição ou falta de amor. Significa que o organismo daquela mulher percebe e processa esses estímulos de uma maneira diferente”, explica a pediatra.

A forma como cada mulher vivencia essas características, no entanto, é individual. Por isso, compreender suas necessidades e buscar estratégias adequadas pode ser importante para tornar a rotina mais sustentável.

TDAH e as múltiplas demandas da maternidade

No caso de mães com TDAH, dificuldades relacionadas à atenção, organização, gerenciamento do tempo e memória podem se tornar ainda mais desafiadoras diante da quantidade de tarefas envolvidas na maternidade.

Horários, compromissos, alimentação, consultas, atividades escolares e cuidados cotidianos exigem a administração simultânea de diferentes demandas.

“Muitas acabam sendo julgadas como desorganizadas, distraídas, impacientes ou incapazes, quando, na verdade, estão sobrecarregadas e precisam de compreensão e estratégias adequadas”, afirma Marli.

Para a médica, reconhecer essas dificuldades ajuda a substituir julgamentos por uma compreensão mais individualizada das necessidades de cada mãe.

Quando o diagnóstico chega na vida adulta

Outro aspecto apontado pela pediatra é o diagnóstico tardio. Algumas mulheres só descobrem o autismo ou o TDAH na vida adulta, inclusive depois de se tornarem mães.

Antes de compreenderem o próprio funcionamento, elas podem interpretar determinadas dificuldades como falhas pessoais e carregar sentimentos de culpa por anos.

“Quando o diagnóstico chega, ele pode representar um grande alívio, porque permite que essa mulher compreenda e ressignifique tudo o que viveu. Ela percebe que nunca amou menos e nunca foi uma mãe inferior. Apenas viveu a maternidade com um funcionamento diferente, muitas vezes sem compreensão, sem estratégias adequadas e sem o apoio de que precisava”, diz a médica.

O diagnóstico, nesse contexto, pode oferecer uma nova perspectiva sobre experiências que antes pareciam difíceis de explicar, além de abrir caminhos para estratégias de suporte individualizadas.

Um olhar que também precisa alcançar a mãe

Para Marli, discutir a maternidade de mulheres neurodivergentes significa ampliar a atenção para além dos filhos e reconhecer também quem está exercendo o cuidado.

A pediatra defende que essas mulheres tenham espaço para falar sobre suas experiências e encontrar apoio sem que dificuldades específicas sejam automaticamente interpretadas como falta de dedicação ou afeto.

“O diagnóstico não muda a mãe que ela foi. Muda a maneira como ela compreende tudo o que viveu”, conclui.

Sobre Marli Rio

Marli Rio é pediatra há mais de 30 anos e dedica seu trabalho ao cuidado do bebê sem deixar de considerar a mulher que está vivendo a experiência da maternidade. Sua atuação também aborda aspectos das dificuldades maternas que podem permanecer invisíveis, incluindo os desafios relatados por mães neurodivergentes.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Ele1 - Criar site de notícias