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Comportamento Economia

Selic a 15% não elimina riscos da renda fixa, alerta especialista

Recuperações judiciais de empresas chamam atenção para o risco de crédito e reforçam a importância de avaliar emissores e diversificar a carteira

28/09/2026 18h59
Por: Carol Pedrosa Fonte: Lucas Almeida
foto:divulgacao
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A renda fixa ganhou espaço entre investidores diante do cenário de juros elevados e da possibilidade de obter retornos mais atrativos com menor volatilidade. Mas uma taxa de referência elevada não significa que todo investimento necessariamente entregará o mesmo percentual ao final da aplicação.

O aumento de empresas recorrendo à recuperação judicial também coloca em evidência um fator que pode ser menos percebido por quem associa renda fixa apenas à previsibilidade: o risco de crédito.

Para Gabriel Magalhães, sócio-fundador e estrategista-chefe da Aliá Partners, o ambiente de juros altos pode aumentar a pressão financeira sobre empresas endividadas e, consequentemente, afetar investimentos ligados a essas companhias.

“Uma Selic a 15% talvez não signifique 15% para o investidor. Quando os juros sobem, alguns negócios enfrentam dificuldades e isso pode atingir a carteira de alguma forma. Um evento de crédito pode fazer uma carteira que estava projetada para render 15% entregar 13% ou 12%. O investidor precisa considerar também os problemas que juros nesse patamar trazem para as empresas”, explica.

Recuperação judicial não é sinônimo de perda total

Um dos eventos que podem alterar as condições de um investimento é a recuperação judicial. O mecanismo é utilizado por empresas que enfrentam dificuldades financeiras para tentar reorganizar suas dívidas e manter as atividades enquanto negociam com os credores.

Para investidores que possuem títulos de dívida da companhia, a recuperação judicial não significa necessariamente perda integral dos recursos aplicados. O processo pode envolver alterações nos prazos, taxas, vencimentos e valores a serem recebidos, conforme as condições negociadas e aprovadas pelos credores.

“Recuperação judicial não é sinônimo de falência. A empresa está tentando renegociar suas dívidas para continuar funcionando e conseguir honrar seus compromissos. Para o investidor que é credor, isso pode significar mudança de prazo, taxa, vencimento ou até do valor a receber, dentro de um processo que passa pela negociação e aprovação dos credores”, afirma Gabriel.

A situação, no entanto, modifica a percepção de risco sobre o ativo. Um investimento que inicialmente apresentava características consideradas conservadoras pode passar a exigir maior acompanhamento depois de uma deterioração financeira do emissor.

Renda fixa também envolve risco

A expressão “renda fixa” está relacionada à forma como a remuneração do investimento é estabelecida, mas não significa ausência absoluta de riscos. Dependendo do produto, podem existir riscos de crédito, de mercado, de liquidez e outros fatores.

No caso de títulos corporativos, por exemplo, a capacidade financeira da empresa emissora é um elemento relevante para a análise.

“Talvez o maior desconforto seja perceber que algo que era considerado conservador se tornou mais arriscado. Renda fixa não significa garantia de 100%. Em um ativo de boa qualidade, a probabilidade de um problema pode ser pequena, mas ela existe. Quando acontece, aquele investimento precisa ser administrado dentro da carteira como um ativo que está passando por um momento de estresse”, explica.

Diversificação como parte da gestão de risco

Nesse cenário, a diversificação aparece como uma das ferramentas para reduzir o impacto que um eventual problema de crédito pode provocar sobre o patrimônio.

A lógica é evitar que uma única empresa, emissor ou tipo de ativo represente uma parcela desproporcional da carteira. Dessa forma, um evento específico pode ter impacto limitado sobre o conjunto dos investimentos.

“Um evento de crédito não pode significar a ruína de um portfólio. A diversificação existe também porque boas empresas podem enfrentar problemas. O tamanho de cada posição precisa ser compatível com o risco daquele ativo. Assim, quando uma situação inesperada acontece, ela representa uma parcela administrável da carteira e não compromete todo o patrimônio”, destaca Gabriel.

O que acontece com o investidor durante uma recuperação judicial?

Ao comprar um título de dívida corporativa, o investidor, na prática, está financiando a empresa emissora. Caso a companhia enfrente dificuldades para cumprir as condições originais do contrato, os credores podem participar do processo de renegociação.

Dependendo do caso, isso pode significar aceitar novos prazos ou outras condições para aumentar as possibilidades de recuperação dos valores envolvidos.

“É semelhante a emprestar dinheiro e depois o devedor pedir mais prazo ou uma renegociação porque não consegue cumprir as condições originais. O investidor pode precisar abrir mão de uma parte das condições contratadas para aumentar a possibilidade de a empresa continuar existindo e pagar o restante da dívida”, explica o estrategista.

Por isso, a análise de um investimento de renda fixa corporativa não deve se limitar à taxa de remuneração. A qualidade do emissor, as condições do título e a concentração da carteira também fazem parte da avaliação de risco.

Juros altos exigem atenção ao emissor

O cenário de juros elevados não significa, por si só, que o investidor deva abandonar a renda fixa. A classe continua oferecendo diferentes alternativas de remuneração, mas a escolha dos ativos precisa considerar os riscos envolvidos em cada produto.

“O investidor não deveria olhar apenas para a taxa e pensar que 15% estão garantidos. Pode haver eventos ao longo do caminho. Mesmo que uma carteira termine entregando 12% ou 13% depois de enfrentar algum problema de crédito, ainda é preciso analisar esse resultado dentro do contexto histórico e comparar o risco assumido com outras classes de ativos”, afirma Gabriel.

A principal questão, segundo o especialista, é construir uma carteira que considere não apenas os cenários favoráveis, mas também a possibilidade de eventos inesperados ao longo do caminho.

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