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Comportamento Saude

Saúde mental da mãe atípica também precisa estar no centro do cuidado

Sobrecarga emocional, falta de rede de apoio e excesso de responsabilidades podem comprometer a qualidade de vida de mulheres que assumem grande parte dos cuidados com os filhos

26/08/2026 14h33
Por: Carol Pedrosa Fonte: Fato Mais
foto:divulgacao
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Cuidar de uma criança que demanda acompanhamento médico, terapêutico e educacional exige tempo, organização e disponibilidade emocional. Para muitas mães atípicas, essa rotina também envolve burocracias, adaptações constantes e a necessidade de conciliar os cuidados com outras responsabilidades — muitas vezes sem uma rede de apoio suficiente.

Dados da PNAD Contínua 2022, do IBGE, apontam que o Brasil tinha 18,6 milhões de pessoas com deficiência com dois anos ou mais. Nesse contexto, a sobrecarga de quem assume os cuidados cotidianos também ganha relevância, especialmente diante da concentração dessas responsabilidades sobre as mães.

Estudos citados pela psicóloga Andreia Bastos, que atua no centro clínico do Órion Complex, em Goiânia, apontam uma maior presença de sintomas de ansiedade, depressão e estresse entre mães de crianças com condições do neurodesenvolvimento.

Segundo a especialista, o momento do diagnóstico pode provocar um processo emocional relacionado à ruptura das expectativas construídas durante a gestação. “A quebra dessa expectativa causa sentimentos de confusão, medo, culpa e desamparo. As mães costumam lidar com isso atravessando estágios de luto até alcançarem a aceitação da realidade do filho real”, explica.

Quando o autocuidado fica em segundo plano

A dedicação integral ao filho pode fazer com que a mulher deixe de lado necessidades pessoais, profissionais e sociais. Carreira, estudos, lazer, amizades e até consultas médicas podem ser adiados diante das demandas da rotina.

Para Andreia, alguns sinais merecem atenção: exaustão física e emocional, irritabilidade, ansiedade, sintomas depressivos persistentes, sensação de incapacidade, culpa excessiva e dificuldade de reconhecer os próprios desejos para além da função de cuidadora.

Outro ponto destacado pela psicóloga é a romantização da chamada “mãe guerreira”. Embora muitas mulheres desenvolvam grande capacidade de adaptação diante das circunstâncias, transformar a sobrecarga em sinônimo de força pode dificultar a busca por ajuda.

“Essa romantização invalida os sentimentos legítimos de cansaço, dor, medo e raiva. Se a mãe é vista como um ser incansável, suas queixas passam a ser interpretadas como fraqueza ou falta de amor”, afirma.

Cuidar de quem cuida

A saúde mental materna também depende de uma rede de apoio efetiva. Familiares e amigos podem contribuir dividindo tarefas domésticas, acompanhando a criança em consultas e terapias ou simplesmente oferecendo escuta sem julgamentos.

O apoio institucional também é apontado como fundamental. Facilitar o acesso a tratamentos, serviços e políticas públicas pode reduzir parte do estresse provocado pela necessidade de buscar individualmente soluções para as demandas da família.

“A mãe só consegue estar inteira quando seu direito à individualidade é preservado”, destaca Andreia. Segundo ela, além da divisão das responsabilidades, o acompanhamento psicológico e os grupos de apoio podem ajudar essas mulheres a reconstruir espaços de identidade que não estejam restritos à maternidade.

Mais do que reconhecer a dedicação dessas mães, discutir sua saúde mental significa compreender que quem cuida também precisa ser cuidado. Preservar a individualidade, dividir responsabilidades e construir redes de apoio são caminhos para que o cuidado com os filhos aconteça sem que a mulher precise abrir mão de si mesma.

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