Pedro Goifman está vivendo uma daquelas fases em que diferentes caminhos da carreira começam a se encontrar. Depois de construir uma trajetória como ator, ele agora também assume a direção e chega a dois importantes momentos do cinema brasileiro: a estreia de seu primeiro curta como diretor e a participação em um longa selecionado para um dos mais tradicionais festivais internacionais.
De um lado está “Adrenalina”, curta que marca oficialmente sua estreia na direção e será exibido no Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo. Do outro, “A Professora de Francês”, de Ricardo Alves Jr., no qual Pedro interpreta uma das figuras centrais de uma seita e que terá estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, na Espanha.
São trabalhos diferentes, mas que ajudam a mostrar o momento de um artista interessado não apenas em estar diante das câmeras, mas também em investigar o cinema por trás delas.
Um filme com Jean-Claude Bernardet
Em “Adrenalina”, Pedro divide a cena com Jean-Claude Bernardet, um dos nomes mais importantes da crítica e do pensamento cinematográfico brasileiro, em um de seus últimos trabalhos como ator.
Bernardet interpreta um médico obcecado por roubar bicicletas. A ideia surgiu de uma situação aparentemente banal: durante um almoço com os pais, Pedro viu um ciclista passar e, a partir dali, nasceu a história de um personagem que usaria justamente a aparência de ciclista para cometer os furtos.
Para Pedro, o nome de Bernardet apareceu naturalmente.
“Adrenalina sempre foi ele, nunca houve uma decisão. A gente sempre conversava de cinema e de ideias e sempre quis fazer um projeto com ele”, conta.
A relação entre os dois começou ainda na infância de Pedro. Eles já haviam se encontrado nas filmagens de “FilmeFobia”, mas foi durante “Periscópio”, rodado na casa da família do ator, que a proximidade se aprofundou.
No novo curta, Pedro também atua. E precisou encontrar um equilíbrio curioso entre estar em cena e comandar o filme.
“Fora de cena, operava mais como diretor e, em cena, só buscava esquecer de tudo e estar lá com ele.”
Bernardet morreu em julho de 2025, quando “Adrenalina” começava a ser montado. Agora, pouco mais de um ano depois, o filme será exibido justamente na Cinemateca Brasileira, onde aconteceu o velório do cineasta e crítico.
Para Pedro, a primeira sessão ganha um significado especial.
“Será muito simbólico passar o filme lá pela primeira vez.”
Uma história de cinema que começou cedo
A relação de Pedro com o Kinoforum, festival que recebe “Adrenalina”, também vem de longe. Aos seis anos, participou de uma oficina no Itaú Cultural em que crianças escreveram, dirigiram e atuaram em um filme inspirado nos Parangolés de Hélio Oiticica. O trabalho foi exibido e premiado.
Dois anos depois, voltou ao festival com “O Olho e o Zarolho”, seu primeiro trabalho como protagonista, também premiado.
Antes de chegar oficialmente à direção, Pedro acumulou experiências atrás das câmeras em curtas caseiros e em duas webséries realizadas durante a pandemia.
“Adrenalina” representa, porém, uma mudança de escala e de intenção. Segundo ele, apesar de ser um filme despretensioso e formalmente investigativo, foi pensado desde o início para o cinema e para a experiência da tela grande.
De São Paulo para San Sebastián
Enquanto estreia na direção em São Paulo, Pedro também vive um momento importante como ator.
“A Professora de Francês”, de Ricardo Alves Jr., foi selecionado para a mostra Horizontes Latinos, do Festival de San Sebastián, na Espanha. A coprodução entre Brasil, França e Portugal acompanha Graça, interpretada por Grace Passô, que retorna à casa onde cresceu depois de uma emergência de saúde do pai.
No reencontro com a vizinhança, ela descobre que antigos conhecidos agora lideram uma seita.
Pedro interpreta Tomaz, personagem inserido em uma história que mistura suspense, thriller psicológico e terror social para abordar temas como intolerância de gênero, fanatismo religioso e homofobia.
Para construir o papel, o ator pesquisou líderes de cultos, figuras religiosas e técnicas utilizadas por charlatães. Também se dedicou à maneira como o personagem escolhe e utiliza as palavras.
“O que mais me chamou atenção foi a ousadia. Eu achei o filme poderoso, hipnotizante, encantador e propositalmente horroroso. Tentei trazer isso para o Tomaz”, explica.
O elenco reúne nomes como Grace Passô, Jehnny Beth, Elisa Lucinda, Bárbara Colen, Rômulo Braga, Eduardo Moreira e Rodger Rogério.
Entre atuar e dirigir
Mais do que duas estreias importantes, os projetos parecem representar uma expansão natural do olhar de Pedro sobre o cinema.
A experiência com Bernardet também deixou uma marca pessoal. O artista lembra que o crítico costumava brincar que havia feito filmes com os pais de Pedro, depois com ele, e que gostaria de viver o suficiente para trabalhar também com um futuro filho do ator e diretor.
“A principal herança que ele deixou para mim como artista foi essa garra por fazer, o tesão pela investigação artística, a sede que nunca acaba.”
Talvez seja justamente essa curiosidade que melhor defina o momento de Pedro Goifman. Entre a atuação e a direção, entre um curta intimista e uma produção internacional, ele começa a ocupar diferentes lugares dentro do cinema — sem deixar de lado a vontade de experimentar.
E, para quem acompanha sua trajetória desde cedo, os próximos capítulos prometem ser tão interessantes quanto os filmes que ele escolheu fazer.
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