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O demônio no espelho: quando a arte revela mais sobre quem olha!

Entre mitos, memórias e símbolos do São Francisco, a artista Zackia Daura propõe uma reflexão sobre medo, fé, intolerância e aquilo que projetamos sobre o outro

21/08/2026 10h44
Por: Carol Pedrosa Fonte: Naves Coelho Comunicacao
foto:divulgacao
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Há obras de arte que simplesmente estão diante dos nossos olhos. E há aquelas que parecem olhar de volta.

São essas que costumam provocar mais desconforto. Em vez de apenas decorar um espaço, elas despertam memórias, mexem com crenças e, algumas vezes, fazem surgir sentimentos que nem sempre sabemos explicar.

É justamente nesse território que transita o trabalho da artista, escritora, escultora e pesquisadora Zackia Daura, que encontra nos mitos, nas águas e no imaginário ribeirinho do Rio São Francisco matéria-prima para suas criações.

Entre suas obras estão figuras como o Minhocão, as sereias, a Mãe d’Água e a deusa Vereda. Para alguns, são símbolos de ancestralidade, pertencimento e memória. Para outros, essas mesmas criaturas podem despertar estranhamento e até ser associadas ao demoníaco.

E é aí que começa a provocação de Zackia: quando alguém vê um demônio onde existe um mito, de onde veio esse demônio?

Talvez não tenha vindo da escultura. Talvez tenha vindo do olhar.

O que enxergamos também fala sobre nós

Nenhum olhar é completamente neutro. Chegamos diante de uma obra carregando nossas experiências, crenças, medos, desejos e referências.

Uma criança pode olhar para uma sereia e enxergar encantamento. Um pescador pode reconhecer uma história que ouviu às margens do rio. Um pesquisador pode identificar a permanência de um mito ancestral. Um artista pode perceber formas, texturas e metáforas.

Outra pessoa pode enxergar uma ameaça.

A obra, no entanto, continua sendo a mesma.

A diferença está no universo de quem observa.

É uma ideia que encontra eco na psicologia de Carl Gustav Jung, especialmente no conceito de sombra: aspectos de nós mesmos que recusamos, reprimimos ou ainda não conseguimos reconhecer.

Aquilo que não aceitamos em nós, muitas vezes, acaba sendo projetado para fora.

E talvez seja por isso que determinadas imagens incomodem tanto.

Quando um desejo, um medo ou uma contradição não cabe na imagem que construímos de nós mesmos, pode ser mais fácil encontrar um culpado do lado de fora.

O diferente vira ameaça. O desconhecido vira perigo. O símbolo vira demônio.

Quando o mito perde seu significado

Existe também uma diferença importante entre mito e mentira.

O mito não precisa ser entendido como uma narrativa factual para carregar significado. Desde os tempos mais antigos, sociedades de diferentes partes do mundo utilizaram histórias, personagens e símbolos para falar sobre nascimento, morte, natureza, desejo, medo e transformação.

Serpentes, dragões, grandes mães, heróis, monstros e criaturas das águas aparecem em culturas distantes justamente porque o imaginário humano encontrou nessas figuras maneiras de representar aquilo que nem sempre cabia em palavras.

Jung estudou os arquétipos presentes nessas narrativas. Joseph Campbell também investigou estruturas míticas que atravessam diferentes culturas.

Talvez os antigos soubessem algo que nossa época, tão acostumada à literalidade, às vezes esquece: algumas verdades humanas precisam ser imaginadas antes de serem compreendidas.

O símbolo não exige necessariamente crença. Ele pede interpretação.

Entre a fé e o medo

É nesse ponto que a reflexão sobre arte encontra outra questão delicada: a relação entre fé, intolerância e medo.

Não se trata de questionar a espiritualidade. Pelo contrário. A busca pelo transcendente acompanha a humanidade desde sempre.

A inquietação aparece quando a fé deixa de ser espaço de transformação interior e passa a ser utilizada para condenar aquilo que não se encaixa em determinada visão de mundo.

Quando isso acontece, o mito pode virar ameaça. O corpo pode se tornar suspeito. A sensualidade pode ser tratada como perigo. A imaginação pode passar a ser vigiada.

E a arte, que deveria abrir perguntas, acaba sendo colocada no banco dos réus.

Uma fé verdadeiramente profunda, talvez, não precise temer uma escultura.

O guardião que veio das águas

No trabalho de Zackia Daura, o Minhocão não surge como entidade religiosa. Ele nasce das histórias, da memória oral e da relação das comunidades com o Rio São Francisco.

Transformado em escultura como Guardião do Rio São Francisco, o personagem ganha outro significado: torna-se uma metáfora da proteção das águas e da responsabilidade humana diante da natureza.

E não é por acaso que essas criaturas vêm das profundezas.

A água sempre carregou esse simbolismo. Existe aquilo que está na superfície e aquilo que permanece escondido.

Nas profundezas vivem os peixes, os mistérios, as histórias — e, simbolicamente, também nossos sonhos, desejos e medos.

As sereias ocupam esse mesmo território de fronteira. São parte humanidade, parte natureza; carregam beleza, mistério, desejo e transformação.

No universo da artista, elas também estão ligadas ao território afetivo de Três Marias e às histórias que atravessaram gerações.

Mas, quando alguém olha para uma dessas figuras e imediatamente enxerga perversidade ou demonização, a pergunta retorna:

Estamos olhando para a obra ou para aquilo que colocamos sobre ela?

Por que destruir aquilo que nos incomoda?

A história está cheia de livros queimados, imagens destruídas, esculturas mutiladas e obras censuradas em nome de certezas morais, políticas ou religiosas.

Existe algo particularmente revelador nesse impulso de destruir um símbolo.

Se ele fosse realmente insignificante, talvez bastasse ignorá-lo.

A necessidade de eliminá-lo pode indicar justamente o contrário: ele provocou alguma coisa.

Quebrar o espelho, afinal, não destrói o reflexo.

A arte tem essa capacidade desconfortável de abrir portas que passamos anos tentando manter fechadas. Ela nos lembra que somos feitos também de contradições, instintos, desejos, medos e mistérios.

Talvez amadurecer não seja eliminar essas partes, mas aprender a reconhecê-las.

A pergunta que fica

Por isso, diante de alguém que encontra um demônio em uma obra de arte, talvez a pergunta mais interessante não seja:

“Por que o artista colocou o demônio ali?”

Mas:

“Por que eu estou vendo um demônio?”

A pergunta muda tudo.

Ela tira o julgamento da obra e o coloca diante do próprio observador.

E talvez seja justamente aí que a arte cumpra uma de suas funções mais importantes: não entregar respostas prontas, mas provocar perguntas que continuam trabalhando dentro de nós depois que deixamos a exposição.

As criaturas das águas de Zackia Daura não pedem adoração. Pedem imaginação. Não querem impor uma verdade religiosa. Carregam memória.

São lembranças de um tempo em que as histórias eram contadas à beira do rio, ao redor do fogo, passando de uma geração para outra.

Antes de aprendermos a explicar o mundo, aprendemos a imaginá-lo.

Talvez uma cultura amadureça não quando destrói seus símbolos, mas quando aprende a interpretá-los.

E é por isso que o Minhocão, as sereias, a Mãe d’Água e a deusa Vereda continuam emergindo das águas do São Francisco.

Cada pessoa pode enxergar aquilo que quiser.

Beleza. Memória. Mistério. Poesia. Medo.

Ou até demônios.

A obra, porém, permanece silenciosa diante de todos.

Como um espelho.

E talvez esteja justamente esperando que cada um descubra quem está olhando de volta.

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